quarta-feira, 18 de julho de 2018

Faim

Sempre com fome

Nacos de abóbora cozida aos montes
Amassadas no feijão fumegante
Colheradas de maionese na comida
"Cavucando" a massa com colher
Sem modos e precedentes
A montanha disforme de arroz
Os pedaços de bife mordidos
                      [ com os incisivos anteriores ]

As repetições das refeições
"Cavucando" a massa com colher

Você sempre com fome

Marmitas esquentadas as pressas
Arremata o almoço com biscoitos
Leite, derivados
Queijos derretidos
Goles seguidos

insaciável vontade de ser
também de ter
pouco pra conseguir ser você.
Sempre com fome

quinta-feira, 5 de julho de 2018

O Gênio da Multidão – Charles Bukowski

Existe suficiente má fé, ódio, violência e absurdo no ser humano médio para abastecer qualquer exército em qualquer dia

E os melhores no assassinato são aqueles que pregam contra ele
E os melhores no ódio são aqueles que pregam o amor
E os melhores na guerra – finalmente – são aqueles que pregam a paz

Aqueles que pregam deus, precisam de deus
Aqueles que pregam paz, não têm paz
Aqueles que pregam amor, não têm amor

Cuidado com os pregadores
Cuidado com os conhecedores
Cuidado com aqueles que sempre leem livros
Cuidado com aqueles que detestam a pobreza
Ou são orgulhosos dela

Cuidado com aqueles que são rápidos para louvar
Pois eles precisam de louvor em troca
Cuidado com aqueles que são rápidos para censurar
Eles temem aquilo que não sabem
Cuidado com aqueles que buscam multidões
Porque eles nada são sozinhos
Cuidado com o homem médio e a mulher média
Cuidado com o seu amor, seu amor é médio
Busca o mediano

Mas existe genialidade em seu ódio
Existe genialidade suficiente em seu ódio para matar você
Para matar qualquer um
Não desejando solidão
Não entendendo solidão
Eles tentarão destruir tudo
Que for diferente do que sabem
Não sendo capazes de criar arte
Eles não entenderão arte
Eles considerarão seu fracasso como criadores
Apenas como um fracasso do mundo
Não sendo capazes de amar plenamente
Eles acreditarão que seu amor é incompleto
E então eles terão ódio de você
E seu ódio será perfeito

Como um brilhante diamante
Como uma faca
Como uma montanha
Como um tigre
Como cicuta

Sua melhor arte

terça-feira, 3 de julho de 2018

Bem - te - vi

eu te imaginei.
perna, queixo, dente, peito, quente, tórax.
te imaginei dentre todas as noites confusas cheias de palavras, promessas, sorrisos e entregas.
te confiei meu desejo.
te dei milhões de beijos imaginários. te toquei a pele. te pedi silêncio.
te enviei milhões de sinais. te coloquei no colo. te fiz dormir.
dormimos juntos, lendo a palavra um do outro e quando o mundo explodia nós apenas sabíamos para onde era seguro correr.
e eu corri tanto de você.

te quis longe quando estava perto.
te quis longe quando você queria se aproximar.
te enganei alegando falta de tempo. falta de coragem e dinheiro.
mas era falta de ar. falta de certeza.

te vi chorar pelas pontas dos dedos.
te acompanhei crescer.
te vi mudar.





[e quando olhei de novo não consegui te ver novamente]


segunda-feira, 2 de julho de 2018

Diálogos reais não consumados #1

_ Oi.
_ Opa,  e aí?
_ Indo, como sempre. Vc sabe.
_ É...
...
_ Olha, imaginei esse diálogo milhares de vezes. Agora tô aqui como uma idiota sem saber o que falar. Justo eu cuja especialidade é falar. Rs
_ Esquenta não.
_ Vc ainda reticente.
_ O que vc quer que eu diga?
_ Nada. Deixa.
...

terça-feira, 26 de junho de 2018

Unfriend

tal qual a morte
a voz vai se esvaindo das lembranças
o contato, tão raro, vai perdendo o calor
apenas um número e uma impressão digital
talvez um nome na folha de pagamento
as notificações silenciadas
acompanhamos-nos apenas pelo vidro do aquário
cada um na sua bolha social


[enquanto eu continuo no seu topo verborragiando minha palavra
você é apenas um link silencioso e obsoleto nos meus favoritos]

sexta-feira, 22 de junho de 2018

Paralisia é paroxítona?

de pé no poço do líquido negro viscoso que me impede o andar
areia movediça infausta a subir pelos membros
torturante infortúnio paralisando o primeiro passo
paralisando o movimento
paralisando o êxito da palavra
calando a voz
tornando os olhos soturnos e carregados de melancolia

tetro fim
triste fim
cor que não reflete luz

quinta-feira, 21 de junho de 2018

Sem título - Por Nando Herrera*

sou um animal político
minhas patas reagem lentas
pelo costume
de se atolar no meio do estrume

e tenho asas atrofiadas
pelo limite
de só voar onde se permite

preso pela coleira do cio
dominado pelo estrado
que financio

as leis
eu as sigo
porque as mereço
as constituições
são um coletivo
de cabrestos

sou um animal político
mantendo o equilíbrio
ecológico
por trás das grades
desse zoológico.




[*da série: dizeres e poemas de outros]